A peguei em mãos, eu era tão jovem. Estava sorrindo, mas não havia felicidade alguma. Sorria para um aparelho; e mamãe dizia:
- Sorria,
Gabi. Sorria, apenas sorria!
E então um clarão iluminava tudo. Não se podia ver como ficara, era apenas tirar e depois de um longo prazo, revelá-las. Não apagava, nem muito menos, ficávamos tristes antes da hora pelo resultado
indesejado. Após a revelação, o tempo já havia passado, e então olhávamos para o espelho e
diziamos:
-Nossa, estou mais bela agora.
Sorriamos,
estávamos contentes. E hoje tenho em mãos todas as minhas fotos de criança, das mais feias e
bregas, até as mais
jeitosas e
charmosas. E não fico triste por tê-las tirado, são apenas lembranças.
Hoje, pois, não tenho mais nenhuma. Não as revelo, todas que tiro as apago; não guardo uma sequer de minha
adolescência, apenas aquelas tiradas na escola, em que meus pais insistiram em comprá-las, mesmo eu tendo
saído com um sorriso torto ou olhando pra
direção errada.
São fotos, lembranças jamais esquecidas.
Às vezes esquecemos de lembrar de alguns momentos, mas quando olhamos os vestígios de um acontecimento marcante, e então recuperamos a lembrança de cada detalhe de um passado tão distante.
Agora é tudo tão diferente, reclamo pois tenho espinhas, embora eu saiba que isto é normal em minha idade, talvez o sinal de estar crescendo. Mas não, não quero tirar fotos assim.
Maquiagem não as cobre; as jogo em um programa que me
modifica por inteiro, mas aquela em minha tela, bom... Aquela não sou eu! É o que eu deveria ser pra poder ser aceita no mundo da beleza, mas eu não sou bela quanto aquela em que fabriquei no computador, aquela é irreal. Aquela sorri porque sorrisos são apenas belos. E esta, cheias de espinhas, estrias, e defeitos, sou eu. Pois tire uma foto feia minha, desde que seja meu verdadeiro rosto, pele, corpo. Quero momentos, não troféus de uma juventude perfeita.
Afinal, beleza vai-vem, e então acabaremos todos iguais. Morreremos não do mesmo jeito, mas vamos para o mesmo local: à sete palmos do chão; ou até há daqueles que preferem ser cremados. Mas não há explicações para não me aceitar da forma em que sou, afinal fotos são apenas lembranças, e elas eu quero guardá-las não somente no peito, quero olhá-las, quero fotografá-las para sempre lembrar de uma vida, minha vida, aquela em que vivi.
Pauta para Blorkutando